"Era
como olhar as ruínas de uma cidade antiga, uma cidade marroquina
com uma idade de dezenas de séculos, convulsionada por um terremoto
ou por alguma outra catástrofe. Divisei um entrelaçamento
confuso de ruas sinuosas entupidas de escombros e passagens estreitas
(...). A meia distância, grandes muralhas estavam intactas, apoiadas
por suportes ossificados. Havia aberturas escuras nas dilatadas paredes
submersas - traços de fachadas ou de seteiras. A totalidade desta
cidade flutuante inclinava-se de um lado para o outro como um navio que
estivesse soçobrando, mergulhava e virava, com o sol lançando
continuamente sombras que se moviam, que deslizavam entre as aléias
em ruínas. De vez em quando uma superfície polida captava
e refletia a luz."
LEM,
Stanislaw. Solaris. Rio de Janeiro : Francisco Alves, 1984, p. 213- 214
Aldeia,
sítio, morada. Do murado burgo à metrópole, muito
tempo se passou. O conceito de habitat alterou-se a ponto de quase não
reconhecermos mais as condições que garantiam os princípios
de continência e acolhimento que regeram os primeiros agrupamentos
humanos. Reunidos em torno da tumba de seus antepassados, a vida nas aldeias
girava em torno do que é básico para sobrevivência:
nutrição, proteção e continuidade da espécie.
Mas não só: a partir do momento em que os primeiros homens
se utilizaram das cavernas como abrigo, deixaram também suas marcas
grafadas nas paredes. desenhos, pequenas esculturas muitas vezes associadas
a símbolos cultuados, a ferramentas ou outros utensílios,
iniciaram uma longa e duradoura associação da história
das cidades como a história da arte. Argan, historiador italiano,
escreveu sobre esta inter-relação, colocando a história
da arte como a história da cidade.
As
cidades são compostas por camadas, depositadas umas sobre as outras,
tecendo uma malha irregular e caótica. Uma edificação
de 1900 convive com os altos edifícios de pele de vidro. As mansardas
e as cariátides submergem frente ao concreto e o aço. Os
velhos porões dos teatros resistem, com seus fantasmas, silenciosos
e seculares, ao avanço rápido das ruínas pós-modernas.
Quando
falamos de Roma, de que cidade estamos falando??? A de Nero ou a de Constantino???
Ao nomearmos São Paulo, referimo-nos à pequena aldeia dos
jesuítas ou à terceira maior cidade do mundo???
As imagens
urbanas formam mapas imaginários, compostos por memórias,
restos de passagens e de vielas, calçadas, pedras, arcos, pontes,
mar. Tal trama nos possibilita o sentido de localização,
visual, sonora e afetiva. Desta maneira, é possível dizer,
a cidade nos habita, e não há imagem possível para
um sujeito desenraizada de um lugar, seja este qual for. A cidade da infância,
acaso não é, para o sujeito, decisiva?
As cidades
transformam-se e seria interessante pensar até que ponto, para
seus habitantes, sua imagem se modifica. Ou se tais mudanças criam
outras imagens, que se sobrepõem às anteriores, sem necessariamente
apagá-las, confundindo seus contornos mas nunca sua essência.
As situações urbanas conturbam-se e refazem constantemente
tais mapas que, por último, permitem a sobrevivência nas
grandes metrópoles contemporâneas. O resto é um deserto
formado por vias expressas, túneis e passagens, onde as imagens
são rastros, superfícies encurtadas pela velocidade, peles
sem profundidade, memórias associadas ao movimento errante e contínuo
do fluxo contemporâneo de informações emitidas pelo
corpo urbano.
Tal
saturação cria uma operação inversa no olhar:
a invisibilidade daquilo que repetidamente se instala no cotidiano, daquilo
que desaparece pelo excesso de presença, por aquilo que transborda
a capacidade de absorção de qualquer corpo vivo. Há,
nestes limites, gradações possíveis: desde o apodrecimento
até o desaparecimento, desde as imaginarizações possíveis
até o vazio significante, da morada ao deserto, da vida à
morte.
As
atuais megalópoles padecem de uma sintomática perda de identidade
visual, quando optam por uma estética globalizada e internacional.
Perecem pela ilegibilidade de seus contornos, pelo esquecimento de suas
raízes, pelo enrijecimento da estrutura forçosamente militarista.
Beco sem saída ou cul-de -sac???
Este corpo
agonizante, desequilibrado e partido, com territorialidades bem definidas
e divergentes, torna-se, com facilidade, um campo minado: basta transpor
as linhas imaginárias que delimitam tais guetos, que o risco está
posto como condição inerente. Fragmentado: um corpo em estado
de sítio, onde as diferenças de ordem econômica não
simbolizadas, cultivadas e acentuadas, fortalecem a violência. Deste
modo, as situações urbanas passam a operar a partir de idéias
militaristas que, no extremo, são fascistas.
Acaso,
não está no projeto dos grandes planos de avenidas, dos
traçados claros e prontos para uma invasão rápida
e eficiente, a condição inicial para se render uma cidade?
Para tomá-la, caso todos os planos de dominação econômica,
nada sutis, por um motivo ou por outro, não sejam suficientes?
Mas tal corpo,
intensamente habitado e construído, vivo, inapreensível
e incontrolável pela sua escala e pelo seu pulsar, que responde
desde sua condição surreal de sujeito de inconsciente, manca
e cria aí aberturas, respiros, atalhos. Que desejos estão
em jogo? Como se recupera a memória submersa nesta densidade? Que
se faz com seus fantasmas? Quais são seus sonhos? Talvez sonhos
de uma cidade fictícia, uma cidade antiga, habitada por estranhos
corpos alheios...
Toda
cidade é uma construção de imagem, objetivada a partir
do espaço edificado, consistente através das inúmeras
imaginarizações, afetos, sonhos, símbolos, ícones,
um corpo desenhado pelo desejo e consumido por ele.
E, se a cidade,
como todo, não existe, somente situações urbanas
que só ganham forma a partir do olhar, da pulsão escópica
que despertam, é sobre isto que é possível falar.
ESSE
ARTIGO JA FOI PUBLICADO NA E-ZINE STUDIUM 6, 2001.
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